Antes de ser fotógrafa fui farmacêutica, e foi ali, entre
receitas e conversas de balcão, que aprendi quase tudo o que
hoje guia este trabalho: escutar antes de dizer o que quer
que seja, reconhecer uma família pelos silêncios mais do que
pelas palavras, tratar com calma quem chega com sono
atrasado. Cuidar das pessoas foi sempre o meu ofício; mudou
apenas a forma de o fazer.
Nestes treze anos entraram pelo estúdio milhares de famílias
do Porto, cada uma com a sua maneira particular de chegar.
Algumas voltam agora com o segundo filho ao colo, outras
trazem o bebé daquela barriga que foi fotografada há poucos
meses, e há sempre aquele instante em que se reconhece uma
mão, um sorriso, um modo de abraçar que já tinha ficado
guardado noutras imagens.
A coreografia dos primeiros dias torna-se familiar: o pai
que ainda não sabe bem onde pôr as mãos, a avó que faz
questão de vir ver, a mãe que pergunta, meio envergonhada,
se pode amamentar durante a sessão. Pode, e deve; é mesmo
para isso que ali estamos.
Acredito que uma boa fotografia não se impõe: acontece. Por
isso, cada sessão é conduzida com calma e atenção,
respeitando o ritmo natural de cada bebé, de cada criança e de cada família.
As imagens que nascem desse processo são, talvez, das coisas
mais simples, mas mais verdadeiras: retratos que se parecem
mesmo com a família que os pediu.
É este o compromisso em cada sessão: cuidado antes de tudo,
tempo respeitado e a vontade de entregar fotografias que
valham a pena ser revistas daqui a vinte, trinta, cinquenta
anos.